As queimadas na Amazônia e no Pantanal saíram completamente de qualquer controle. As imagens de animais como onças-pintadas com as patas queimadas representam o ápice da degradação da natureza imposta por uma histórica gestão inconsequente e criminosa do território nacional.

A responsabilidade por uma situação assim é tanto daqueles elementos que usam do fogo como uma forma de “manejo” de suas propriedades ou posses, em ações encadeadas propositalmente, com o aval de governos que assumem uma posição omissa e até favorável a processos que promovem situações fora de controle, como a que estamos vivendo.

As estruturas já combalidas dos órgãos ambientais federais foram ainda mais enfraquecidas, numa atitude que, em última instância, acena para um comportamento conivente com a destruição sem precedentes da natureza, que assistimos em todo o país. Sequer os orçamentos disponíveis pelo IBAMA vêm sendo utilizados, e em um ano o governo reduziu a verba para as brigadas de incêndio florestal em 58%, numa demonstração de descaso absurdo com o patrimônio natural brasileiro e que coloca em risco toda a população.

Assistimos aqui do Sul, com um estarrecimento limitado pela distância, gigantescas áreas sendo totalmente degradadas a partir de um processo de incêndios encadeados de forma proposital em milhares de pontos do território nacional.

Mas o que está ocorrendo à grandes distâncias pode não representar tão somente uma catástrofe limitada à estas regiões. Este inverno atípico atinge praticamente todo o país. E, por aqui (no Sul), vivemos a pior crise hídrica da história. Um casamento indesejável que soma as consequências da contínua degradação ambiental e o surgimento inquestionável dos eventos climáticos extremos – cada vez mais intensos e frequentes. 

Na década de 1960, o Paraná viveu o pior incêndio de sua história. Dezenas de milhares de hectares de áreas naturais viraram cinzas num evento de enormes proporções. Neste momento, podemos estar à beira de uma nova situação similar, colocando em risco as pequenas manchas de fragmentos que ainda restam no planalto ou mesmo atingindo a nossa maior área natural ainda existente no Estado, a Serra do Mar.

Não é hora de se aguardar pelo pior. O governo do Estado tem o dever de liderar uma operação para manter essas áreas protegidas, sem atividades de uso público nesse período crítico, que já se mostra fora de controle, em especial pelo incêndio ocorrido no morro Pão de Loth, em Quatro Barras. Além disso, acionando, ainda, todas as condições possíveis para um esforço profilático e de monitoramento para que queimadas não ocorram, e que qualquer foco de incêndio possa ser atendido em condições de não permitir seu alastramento. Se não fosse a ação dos voluntários protegendo o Pão de Loth, a extensão dos danos poderia ser imensurável.

Proibir imediatamente qualquer tipo de queimada é uma atitude que já deveria ter ocorrido.  Outra atitude seria o acionamento de todas as medidas possíveis que possam ser tomadas, comunicando à sociedade sobre a gravidade da situação, por exemplo, e não permitindo que desastres como os que vêm acontecendo em outros pontos do país sejam também uma situação que iremos enfrentar no Paraná. Com a palavra, o governador Ratinho Junior que, pelo aparente distanciamento que mantém sobre o assunto, talvez precise ser informado dos riscos que o Estado está correndo nesse momento.

Autor: Clóvis Borges é médico veterinário, mestre em zoologia e diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS)


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